Após a gala João perde a Cabeça e atira-se fortemente a…
Alerta Após a gala João perde a Cabeça e atira-se fortemente

Após a gala, João perde a cabeça e atira-se fortemente à noite fria que o espera lá fora. As portas do salão fecham-se atrás dele com um baque surdo, abafando o som da música e das conversas elegantes que ainda ecoavam no interior. O ar da madrugada bate-lhe no rosto como um despertar brusco. Durante horas tinha mantido o sorriso, cumprimentado pessoas, ouvido elogios e discursos intermináveis. Mas por dentro algo fervia.
Ele desce lentamente as escadas iluminadas, ainda com o fato impecável que já lhe parece pesado demais. O silêncio da rua contrasta com o brilho artificial da gala. Ao longe, alguns carros passam e as luzes amarelas dos candeeiros desenham sombras longas no passeio.
João respira fundo. O peito sobe e desce num ritmo acelerado, como se estivesse a tentar expulsar tudo aquilo que guardou durante a noite. As palavras que ouviu continuam a rodar-lhe na cabeça: promessas, elogios vazios, conversas calculadas. Tudo lhe parece subitamente falso.
Ele passa a mão pelo cabelo e começa a caminhar sem destino. Cada passo é rápido, quase impulsivo. Sente uma mistura estranha de frustração e liberdade. Pela primeira vez naquela noite, está sozinho.
A certa altura pára junto a uma praça quase deserta. No centro há uma fonte antiga, iluminada por uma luz fraca que faz a água brilhar. João aproxima-se e apoia as mãos na pedra fria. Fica ali alguns segundos, apenas a ouvir o som constante da água a cair.
É nesse momento que percebe que a noite não está tão vazia como parecia. Do outro lado da praça alguém caminha devagar. Uma figura aproxima-se, primeiro apenas uma sombra, depois um rosto familiar começa a surgir sob a luz do candeeiro.
— João? — diz a voz, surpresa.
Ele levanta a cabeça. O coração bate mais forte. Não esperava encontrar ninguém ali, muito menos aquela pessoa.
— Não pensei que ainda estivesses por aqui — responde ele, tentando disfarçar o turbilhão que sente.
A pessoa aproxima-se mais alguns passos e fica frente a ele. Durante alguns segundos nenhum dos dois fala. O silêncio entre eles é carregado de coisas por dizer.
— Saíste da gala cedo — observa a figura.
João solta uma pequena gargalhada, mais nervosa do que divertida.
— Não era bem o meu lugar.
A resposta fica a pairar no ar. A água da fonte continua a cair, criando um fundo sonoro quase hipnótico.
— Às vezes é preciso sair de onde toda a gente espera que fiquemos — diz a pessoa calmamente.
João olha novamente para a praça, para as ruas que se estendem em todas as direções. Pela primeira vez naquela noite, sente que talvez ainda haja muitas histórias por acontecer depois daquela gala.
E, sem saber exatamente porquê, tem a sensação de que aquela conversa inesperada é apenas o começo de algo maior.











