Afinal Renato Seabra tem a sua razão

Caso Renato Seabra: o sonho de ser modelo, a relação com Carlos Castro e o colapso psicológico discutido em tribunal
Mais de 15 anos depois da morte de Carlos Castro, o caso de Renato Seabra continua a gerar discussão em Portugal. Por detrás de um dos crimes portugueses com maior repercussão internacional esteve uma relação marcada por diferenças de idade, expectativas profissionais, conflitos pessoais e, segundo a defesa do jovem, uma grave perturbação psicológica.
Renato Seabra tinha apenas 21 anos quando viajou para Nova Iorque com Carlos Castro, então com 65. O jovem português tinha participado no concurso “À Procura do Sonho” e procurava abrir caminho no mundo da moda. Carlos Castro, por sua vez, era uma figura conhecida do meio social português e tinha contactos num universo onde Renato desejava construir uma carreira.
Foi precisamente esta ligação entre a relação pessoal e as ambições profissionais do jovem que acabou por ocupar uma parte importante do julgamento.
A própria acusação sustentou perante os jurados que Renato via a aproximação a Carlos Castro como uma forma de progredir na carreira de modelo. Segundo a versão apresentada em tribunal, a relação terá começado também associada a benefícios materiais e às possibilidades que Carlos poderia proporcionar ao jovem. (Diário de Notícias)
Isso significa que Renato foi enganado? Essa conclusão nunca ficou judicialmente estabelecida. Também não ficou provado que Carlos Castro tivesse montado deliberadamente uma falsa promessa de fama apenas para conseguir manter uma relação com o jovem.
O que ficou evidente no processo é que a expectativa de Renato relativamente à sua carreira estava presente na relação e que existiram conflitos entre ambos nos últimos dias da viagem.
O sonho de entrar no mundo da moda
Antes da tragédia, Renato Seabra procurava afirmar-se como modelo. A ida aos Estados Unidos poderia representar, aos seus olhos, uma oportunidade para conhecer pessoas, entrar noutros círculos e aproximar-se do objetivo profissional que perseguia.
A acusação utilizou precisamente essa ambição como parte da explicação para a relação. Durante as alegações iniciais, Renato foi apresentado como um jovem ambicioso que teria encarado a ligação com Carlos Castro como um caminho para atingir determinados objetivos profissionais.
No entanto, quando a relação começou a deteriorar-se, o ambiente entre os dois também se agravou.
Segundo a acusação, existiram discussões, ciúmes e a intenção de terminar a relação. Carlos Castro estaria inclusivamente a preparar um regresso antecipado a Portugal. Para o Ministério Público norte-americano, a frustração provocada pelo fim dessa relação esteve diretamente relacionada com aquilo que aconteceu posteriormente. (Diário de Notícias)
A defesa apresentou uma explicação muito diferente.
Defesa falou num jovem em estado psicótico
Desde cedo, o estado mental de Renato Seabra tornou-se uma das questões centrais do processo.
Depois do crime, Renato foi levado para uma unidade psiquiátrica do Hospital Bellevue, em Nova Iorque. Existiram avaliações médicas com conclusões diferentes sobre o seu estado psicológico e sobre a capacidade que teria, no momento do homicídio, para compreender aquilo que estava a fazer.
A defesa tentou demonstrar que Renato atravessava um episódio psicótico suficientemente grave para não conseguir perceber a natureza e as consequências dos seus atos.
Um psicólogo apresentado pela defesa considerou que o jovem não teria consciência plena do que estava a fazer. A estratégia jurídica passou, assim, por tentar obter um veredicto de não culpado devido a doença ou perturbação mental.
A acusação contestou fortemente essa interpretação.
Um especialista chamado pelo Ministério Público afirmou não ter encontrado provas convincentes de que Renato estivesse a desenvolver um episódio maníaco antes de 7 de janeiro de 2011. Esse especialista reconheceu a existência de problemas emocionais e sinais psicológicos, mas não concordou que estes retirassem ao jovem a capacidade de distinguir o certo do errado. (Diário de Notícias)
Ou seja, até entre os especialistas existiram interpretações diferentes.
Comportamento depois do crime levantou muitas dúvidas
Existiram ainda elementos especialmente difíceis de explicar.
Renato apresentou comportamentos e discursos considerados profundamente perturbados depois da morte de Carlos Castro. Segundo elementos levados ao julgamento, chegou a fazer referências a vozes e a ideias relacionadas com demónios.
A defesa considerou estes comportamentos compatíveis com uma psicose.
A acusação respondeu que não existiam provas suficientes de que essa psicose estivesse presente antes ou durante o homicídio, admitindo até a possibilidade de alguns sintomas terem surgido depois do acontecimento. (Diário de Notícias)
Depois de sair do hotel, Renato acabou por chegar a um hospital com ferimentos nos pulsos. Um detetive testemunhou mais tarde que o jovem teria referido uma tentativa de suicídio. Ficou internado numa unidade psiquiátrica e chegou a estar sob vigilância devido ao risco de voltar a tentar tirar a própria vida. (Diário de Notícias)
São elementos que demonstram que a componente psicológica do caso foi real e relevante, embora a justiça tenha rejeitado a ideia de que fosse suficiente para afastar a responsabilidade criminal.
Júri não aceitou a tese da inimputabilidade
No final, foram os jurados que tiveram de escolher entre duas interpretações praticamente opostas.
Para a defesa, estava perante eles um jovem gravemente perturbado, incapaz de compreender plenamente os seus atos naquele momento.
Para a acusação, Renato sabia o que estava a fazer e o crime resultou de uma combinação de raiva, frustração, vergonha e conflito provocado pelo fim da relação.
Em 30 de novembro de 2012, depois de mais de seis horas de deliberação, os 12 jurados consideraram Renato Seabra culpado de homicídio em segundo grau. (RTP)
Algumas semanas depois, em 21 de dezembro, o tribunal condenou-o a uma pena de 25 anos a prisão perpétua. Isso significa que os 25 anos representam o período mínimo previsto pela sentença, não uma libertação automática ao fim desse tempo. (RTP)
Antes de conhecer a pena, Renato pediu desculpa à família e aos amigos de Carlos Castro e afirmou não conseguir compreender totalmente aquilo que lhe tinha acontecido naquele dia. (Diário de Notícias)
Uma coisa é compreender o contexto, outra é justificar o crime
O passar dos anos permite olhar para o processo com maior distância e perceber que a história foi mais complexa do que simplesmente a imagem de “modelo mata cronista social” que marcou muitas manchetes da época.
Renato era muito jovem, desejava entrar no mundo da moda e estava numa relação com uma pessoa muito mais velha e com contactos no meio onde pretendia entrar. Existiam expectativas profissionais e materiais reconhecidas inclusivamente durante o julgamento.
Também existem provas de que Renato sofreu problemas psicológicos graves no período imediatamente posterior ao crime.
Mas há uma diferença importante entre reconhecer estes fatores e concluir que o homicídio estava justificado ou que ficou provado que Carlos Castro enganou deliberadamente Renato com falsas promessas.
Isso nunca foi estabelecido pelo tribunal.
O que o julgamento demonstrou foi a existência de uma relação complexa, conflitos intensos, expectativas relacionadas com a carreira de Renato e uma disputa profunda entre especialistas sobre o seu estado mental.
A questão que ainda hoje divide opiniões é precisamente esta: até que ponto Renato Seabra já estava psicologicamente em colapso antes do crime e até que ponto esse estado condicionou aquilo que aconteceu naquele quarto de hotel em Nova Iorque?
A defesa tentou convencer o júri de que a doença mental explicava o comportamento extremo. A acusação conseguiu convencer os jurados de que, apesar dos problemas emocionais e psicológicos existentes, Renato compreendia os seus atos e continuava criminalmente responsável.
Foi essa segunda versão que prevaleceu na Justiça norte-americana.



